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CEM ANOS DE SINDICALISMO

UM SÉCULO DE SINDICALISMO BRASILEIRO

 

A luta sindical no Brasil já soma mais de cem anos. As primeiras sociedades de auxílio mútuo surgiram durante os últimos anos do século 19, principalmente no Rio de Janeiro e em cidades do Estado de São Paulo. Formada por membros da mesma ou de várias categorias profissionais ou nacionalidades de imigrantes europeus, foram raras as que, ultrapassando suas finalidades estritamente  assistenciais, assumiram atribuições no plano trabalhista.

 

Estas atribuições eram expressamente da alçada de agremiações sindicais surgidas a partir da última década daquele século. Denominavam-se ligas ou uniões operárias, constituindo-se segundo o quadro dos ofícios e da indústria emergente. Eram pequenas agremiações sob a vigilância e a coerção policial. A maioria teve vida intermitente e efêmera.

 

Por volta de 1904, o número estimativo de agremiações chegava a 300, estando 80% delas na região Sudeste, rareando pelo Sul e Nordeste. Foram organizadas e dirigidas por três categorias de militantes ideologicamente distintas: anarcossindicalistas (predominantes), uma pequena parcela de socialistas e os que se conformavam ao regime capitalista. Aos primeiros coube dividir as reivindicações operárias, motivadoras de sucessivas greves, cujo progressivo atendimento se deu a partir de 1920, na área central do sindicalismo.  Usavam pequenos jornais de círculos ideológicos e de ligas ou uniões operárias, como veículos de comunicação. O sindicalismo começava a organizar-se autônomo, pluralista e federativo, fosse na linha dos ofícios ou na distribuição territorial das agremiações.

 

O primeiro Congresso Operário Brasileiro aconteceu em 1906, no Rio de janeiro, quando foi fundada a respectiva Confederação  - COB, que promoveu mais dois encontros nacionais (1913 e 1920). Outro congresso sindical realizado em 1912, também no Rio de Janeiro e sob os auspícios do governo federal, criou a efêmera Confederação Brasileira do Trabalho. Após a I Guerra Mundial, a igreja Católica começou a organizar seus círculos operários, atribuindo-lhes a função de harmonizar os interesses de empregados e empregadores.

 

A Confederação Sindical foi criada em 1922, após a fundação do Partido Comunista Brasileiro e competia com o anarcossindicalismo. O sindicalismo de esquerda foi reprimido com o malogro do movimento da Aliança Nacional Libertadora, em 1935 e a subseqüente instalação do regime do Estado Novo, que subordinou legal e organizadamente o sindicato. O sistema instituído repousava sobre um tripé formado pela unidade sindical, pela inarticulação de categorias profissionais distintas e pelo imposto sindical. Em cada base territorial – geralmente o município – apenas um sindicato por categoria tinha existência legal, não sendo permitida a duplicidade de órgãos superiores num mesmo âmbito.

 

Desse modo, estava proibida a expansão horizontal de unidades pertencentes a distintas áreas econômicas. Exercendo funções delegadas pelo Estado, os sindicatos cobravam um imposto anual de cada empregado no valor de um salário-dia. Cada unidade de base ficava com 60% da arrecadação feita em seu território, distribuindo-se o restante para sua federação e confederação, assim como para o fundo social sindical. Essa fonte de recursos financeiros criada em 1941 foi um grande estímulo para a fundação de sindicatos, cujo número subiu naquela década de 400 para mil.

 

Entre 1945 e 1964 os sindicatos continuaram sob a direção de militantes getulistas, então filiados ao PTB, aos quais se juntaram os comunistas, em competição ou aliança. Ao lado do sistema oficial preservado até hoje e quebrando isolamentos setoriais, constituíram-se  pactos de agremiações  profissionalmente distintas que culminaram na formação do Comando Geral dos Trabalhadores em 1962. Esse sindicalismo colateral foi extinto pela ditadura militar a partir de 1964; dele só restou e se ampliou o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócios Econômicos – DIEESE, criado m 1955.

 

Com a redemocratização ressurgiu o sindicalismo colateral de nível superior com a criação, em 1983, da Central Única dos Trabalhadores – CUT e em 1986 da Confederação Geral dos Trabalhadores, além da União dos Sindicatos Independentes USI.

 

O sindicalismo rural formou-se a partir de 1944, no âmbito do sistema corporativo oficial, impulsionado no início por comunistas e católicos, seguidos depois por socialistas. Fortaleceu-se a partir de 1960, quando contava com 80 agremiações. O estatuto dos Trabalhadores Rurais, aprovado em 1947, foi transformado em Estatuto da Terra em 1964. No ano anterior reconhecia-se oficialmente a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – Contag.

 

O período 1945-64 foi o período em que o sindicalismo brasileiro atingiu sua fase de maior amplitude. O golpe militar veio,então, barrar os avanços atingidos pela classe operária, iniciando uma fase extremamente penosa para os trabalhadores. Uma violenta repressão foi desencadeada, com a prisão de lideranças operárias e a extinção sumária de organizações sindicais. Através de novos instrumentos legais confinou-se o sindicato ao papel de um órgão assistencialista e de agente intermediário entre o Estado e a classe trabalhadora.

 

Uma nova política econômica, criadora do arrocho salarial, conseguiu se firmar em cima de alguns pontos: a proibição do direito de greve e a fixação dos índices de aumentos salariais, que deixou de ser feita através da negociação entre operários e patrões – como antes de 1964 – e passou a ser prerrogativa absoluta do Estado e finalmente acabou-se com o regime de estabilidade no emprego. Criou-se assim, a rotatividade que o governo necessitava para melhor explorar a força de trabalho.

 

Em 1968 movimentos grevistas tentados pelos metalúrgicos foram violentamente reprimidos. Nesta época foi largamente utilizada a operação tartaruga, pois, os níveis de exploração atingiam formas aviltantes. Somente a partir de 1978 a classe trabalhadora consegue voltar com força ao cenário político nacional. O impulso veio quando através de denúncia ao Banco Mundial, veio à tona, aquilo que já se sabia na prática: o governo vinha usurpando e manipulando através de fórmulas matemáticas significativas parcela do salário real dos trabalhadores.

 

Iniciava-se um novo período combativo para o sindicalismo no Brasil, que ajudou a corroer as bases da ditadura militar. Greves gigantescas, luta pela liberdade, ampliação dos direitos. Eram as reivindicações dos sindicatos entre 1977 e 1983

 

Entre 1983 e 1994, a revisão da Constituição garante a liberdade sindical e com a inflação em alta, os sindicatos tomam como bandeira a reposição do poder aquisitivo do trabalhador.

 

A década de 90 trouxe a democracia e o neoliberalismo com força total, deixando o sindicalismo de ressaca, pois o movimento não estava preparado para uma mudança tão brusca de direção. Segundo o receituário neoliberal, o Estado deveria voltar a ser mínimo, mesmo a custa dos efeitos negativos sobre os indicadores sociais. Dentro de uma economia que aos poucos conseguia dominar a inflação, mas provocava índices assustadores de desemprego, não havia mais espaço para reivindicações salariais. A luta agora era pela manutenção do emprego.

 

Através do projeto de lei 1231/91 e sob o pretexto de regulamentar os artigos da Constituição, que tratam da organização sindical e da representação dos trabalhadores nas empresas, o governo atual, pretendia instituir a pluralidade sindical, eliminar a contribuição obrigatória e tirar os poderes de negociação dos trabalhadores, partindo desse modo a espinha dorsal do sindicalismo nacional.

   

Desafiados mais uma vez, os sindicatos incorporaram novos termos e enfrentaram novas lutas: a abertura da economia para o mercado externo, o plano de estabilização da moeda e a conseqüente queda da inflação e recessão, modernização do processo produtivo, ingredientes estes que quase desmobilizaram a ação sindical e enfraqueceram os trabalhadores.

 

Diante de tantas dificuldades não restou ao movimento outra saída que não fosse qualificar-se e impor seu ponto de vista a partir da persuasão, diálogo e entendimento, valendo-se de órgãos colegiados que dão a indispensável legitimidade às transformações que forem positivas aos direitos dos trabalhadores.

 

Depois de uma década na defensiva, a maré começa a mudar para o sindicalismo, que também está passando por um processo de transformação. Hoje, os sindicatos são muito mais que entidades de união dos trabalhadores para melhores condições de emprego e salário; eles ajudam a arrumar emprego, cuidam da saúde, fazem cursos de treinamento e reciclagem, seguro para a hora do desemprego, seguros de vida, aposentadoria complementar etc, deslocando seu campo de ação das grandes categorias para os grupamentos de empresas, da ideologia para o pragmatismo, do confronto para o diálogo. A palavra de ordem hoje é negociação e diversificação de atividades.

 

A REPÚBLICA SINDICAL

 

No final de 1878 a cidade de Santos foi escolhida para sediar a primeira reunião para a criação do Dia do Trabalho, tornando-se uma das cidades pioneiras na luta de classes. Santos foi a República Sindical do País ou o Porto Vermelho, com um sindicalismo forte e atuante que marcou a história dos trabalhadores entre os anos de 1930 e 1964. Foi nesse período que surgiram os vários sindicatos da região, especialmente os ligados ao setor portuário, que substituíram as associações.

 

Tanta demonstração de politização rendeu à cidade uma dos episódios mais sombrios da ditadura militar. Em 24 de abril de 1964 atracou no canal de Santos  o navio Raul Soares, que em um passado ainda recente havia transportado os pracinhas da FEB aos campos de batalha na Europa, para lutar contra as forças do Eixo. O navio, transformado em presídio, foi assentado em um banco de areia, perto da Ilha Barnabé.

 

Até outubro daquele ano, ele proporcionaria humilhação, sobressaltos e medo ao povo santista. Foi moradia de sargentos do Exército, sindicalistas, jornaleiros, trabalhadores portuários, médicos, professores, advogados; gente que no entender dos militares conspirava contra o governo, ou seja, comunistas, agentes de subversão.

 

No cárcere, os presos foram humilhados, submetidos a pressões físicas e psicológicas; faziam refeições sob a mira de metralhadoras. Muitos devidos às punições adoeceram e não resistiram. A presença do navio era uma forma de manchar o orgulho da cidade, por tradição uma das mais oposicionistas do país, com um povo consciente e sindicalismo vanguardeiro.

 

Nada mais resta do velho navio. Suas chapas de aço foram desmontadas e viraram sucata, mas o triste episódio está na mente dos mais velhos e registrado na história sindical do Brasil. Hoje, cerca de 198 entidades sindicais de trabalhadores, autônomos, avulsos e patronais, convivem na cidade.

 

O SINDICATO SEGUNDO A LEI

 

A Constituição Federal de 1946, no artigo número 159 assegura a organização sindical, deixando a cargo da legislação ordinária a forma de sua constituição.

 

A Consolidação das Leis do Trabalho declara ser lícita e livre a associação para fins de estudo, defesa e coordenação dos interesses econômicos ou profissionais de todos os que exerçam a mesma atividade ou profissão similares ou conexas.

 

Mas para que o sindicato possa representar e fazer contratos coletivos é necessário que ele seja reconhecido pelo governo e, para isso, é necessário satisfazer as seguintes condições fixadas por lei: reunião de um terço de empresas legalmente reconhecidas, se tratar de uma associação de empregadores, ou um terço dos membros de uma mesma categoria, isso para a associação de empregados, de trabalhadores ou agentes autônomos ou profissionais liberais; duração da diretoria de no máximo quatro anos; presidente sendo brasileiro nato e os demais cargos de administração ocupados por brasileiros natos ou naturalizados.

 

Adotando o sistema de unidade sindical o governo só reconhece como órgão representativo um sindicato. Estes podem ser distritais, municipais, estaduais, interestaduais, intermunicipais ou nacionais.

 

Além das funções principais de defesa dos interesses econômicos e profissionais, os sindicatos são considerados órgãos de auxílio ao Estado, dedicando-se também a atividades assistenciais.

 

Além das contribuições que recebem de seus associados, os sindicatos tem o direito de cobrar um imposto sindical, correspondente a um dia de trabalho, de todos os afiliados empregados, e uma quantia variável fixada pelo sindicato, dos afiliados autônomos e profissionais liberais e uma fixada por lei para os empregadores, conforme seu capital.

 

Dentro dos limites de cada Estado, os sindicatos podem se reunir em Federações, contanto que o número de sindicatos seja superior a quatro e representando a maioria absoluta de um grupo de atividades ou profissões conexas. Federações interestaduais e nacionais só podem ser organizadas se autorizadas. As Federações, por sua vez podem, para atingirem nível nacional, se organizar em Confederações com sede na capital da República. Como os Sindicatos, as Federações e as Confederações elegem, periodicamente sua administração e são mantidas por uma parte do imposto sindical.

 

A administração do sindicato é composta por uma Diretoria, com número de membros entre dois e oito e de um Conselho Fiscal, composto por três membros. Ambos, a Diretoria e o Conselho Fiscal são eleitos pela Assembléia Geral.

 

Para organizar a representação sindical no Brasil foi criado um plano básico de enquadramento sindical, paralelo, para categorias patronais, empregados e profissionais liberais. Esse quadro é atualizado de dois em dois anos pela Comissão de Enquadramento Sindical, presidida pelo diretor-geral do Departamento Nacional do Trabalho e da qual fazem parte dois empregados e dois empregadores, indicados, cada dupla, em uma lista de cinco nomes, indicada pelas respectivas Confederações Nacionais e nomeados pelo ministro do Trabalho. A revisão se dará para que o quadro se ajuste as condições reais da estrutura econômica e profissional do país.

 

DATAS IMPORTANTES

 

 

1910

Primeira greve de trabalhadores urbanos influenciada pelos imigrantes italianos e reprimida pela polícia, pela melhoria das condições de trabalho, definição de jornada e salário fixo. A maioria trabalhava para comer e dormir.

 

1917

Segunda greve geral de São Paulo, da qual participaram 100 mil trabalhadores (negros inclusive). A Revolução Russa disseminou o ideal do socialismo que passou a orientar o movimento dos trabalhadores. Os grevistas  conquistaram salário fixo, aumento de 20%, direito de organização, proibição de trabalho noturno de crianças e mulheres e recontratação de demitidos

 

1929

Quebra a Bolsa de Nova Iorque obriga o Brasil a  mudar seu modelo econômico, baseado na exportação agrícola e entrar na industrialização.

 

1930

Getúlio Vargas toma o  poder e reconhece direitos dos trabalhadores para neutralizar a influência comunista. Entre esses direitos, a jornada de oito horas diárias. Advento da previdência social administrada pelo governo (até então, algumas categorias possuíam fundos de pensão) nessa época surge a figura do sindicato pelego, usado pelo Estado para controlar a classe trabalhadora. È criado o Ministério do Trabalho

 

1932

Criada a carteira de trabalho que veio a substituir as carteiras emitidas pelos sindicatos. Regulamentação do trabalho da mulher na indústria.

 

1943

Vargas cria a Consolidação das Leis do Trabalho que reúne todos os decretos trabalhistas desde 1930.

 

1946

Constituição Federal que vigorou até o golpe militar de 1964 dificulta a realização de greves. Decreto regulamenta a Justiça do Trabalho.

 

1962

Criado o 13o salário

 

1963

Criado do salário-família

 

1964

Regime militar inicia intervenção em 90% dos sindicatos. Greve é considerada crime contra segurança nacional. Sindicalistas são cassados.

 

1966

Nasce o Fundo de Garantia por tempo de serviço, que prevê uma indenização ao demitido no lugar do direito à estabilidade no emprego.

 

1979

Surge a CUT e um novo modelo de sindicalismo que faz greve e desafia o regime militar.

É fundada a Federação dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio no estado de SP - FEAAC

Anos 80

Década recordista em greves por questões trabalhistas sociais e políticas

 

1986

Criação do Seguro-Desemprego. Fundação da CGT

 

1988

Nova Constituição Federal amplia direitos trabalhistas, prevê direito à greve, mas mantém o imposto sindical obrigatório e cria a  contribuição confederativa. Cria licença-paternidade, a  participação nos lucros e o  delegado sindical e a multa de 40% sobre os depósitos do FGTS em caso de dispensa sem justa causa. Criado o Fundo de Amparo ao Trabalhador – FTA, que recebe contribuições do PIS-PASEP.

 

Anos 90

Collor tenta implantar a agenda neoliberal e começa a propor a flexibilização das leis trabalhistas, que seria implantada pelo governo FHC. Criada a Força Sindical

 

A partir de 1994

Governo FHC empurrado pela globalização inicia a flexibilização. O plano Real proíbe a reindexação dos salários, aumenta o  desemprego e cria condições  propícias para a  flexibilização, como o  contrato por prazo determinado, suspensão temporária do contrato de trabalho (lay-off), reforma da Previdência (trabalhador tem que trabalhar e contribuir mais para ter direito) e  extinção do juiz classista. Medida provisória sobre  participação nos lucros ou resultados. O governo faz pressão para acabar ou pelo menos esvaziar a Justiça do Trabalho, defende a livre negociação, inclusive no artigo 7o  da Constituição e prega a  pluralidade sindical. Defende 40% sobre o FGTS. Ministério do Trabalho distribui recursos do FTA para requalificação profissional.

 

2000

O governo retira do Congresso o Projeto de Lei 1231/91 que pretendia instituir a pluralidade sindical, eliminar a contribuição obrigatória e minar os poderes de negociação dos representantes dos empregados. Arquivada PEC 623 que pretendia modificar o artigo 8o ,que trata da organização sindical, o artigo 111o sobre representação classista na Justiça do Trabalho e o artigo 114o sobre o poder normativo da Justiça do Trabalho.

 

Pesquisa: Gazeta Sindical/maio-1998

                   O que é sindicalismo – Ricardo C.Antunes – Brasiliense

                   Artigos do Diário Popular e Folha de SP